Por Sabrina Azevedo
Cerca de 400 milhões de crianças no mundo sofrem maus-tratos regularmente em casa, segundo a UNICEF. Novas evidências científicas mostram que essas violências, físicas, emocionais ou psicológicas, podem comprometer o desenvolvimento estrutural do cérebro, com impactos que persistem até a vida adulta. O programa Brasil ODS reuniu os médicos Pollyanna Lima Cerqueira e Pedro Mario Pan para discutir sobre o tema.
Um estudo brasileiro envolvendo 795 participantes entre 6 e 21 anos identificou que experiências de maus-tratos na infância afetam diretamente o hipocampo, região responsável pela memória, pelo aprendizado e pela regulação emocional.
A pesquisa acompanhou os participantes por uma década e concluiu que crianças expostas a abusos, sobretudo emocionais, mantiveram alterações no desenvolvimento dessa área do cérebro até os 20 anos de idade.
Os resultados e suas implicações foram debatidos pelos médicos Pollyanna Lima Cerqueira, neurologista infantil (FMUSP), e Pedro Mario Pan, psiquiatra e pesquisador da UNIFESP, um dos autores do estudo.
Impactos que ultrapassam a infância
Segundo Pedro Mario Pan, embora casos de violência sexual estejam presentes, a maioria das situações relatadas no estudo envolve abuso emocional, como xingamentos e agressões verbais. Ele explica que esse tipo de violência causa uma experiência contínua de vitimização.
“O que percebemos é que crianças que relataram situações de abuso ou negligência emocional apresentavam, anos depois, alterações na estrutura do hipocampo. Mesmo após uma década, o desenvolvimento médio dessa região não se igualava ao de crianças sem histórico de maus-tratos”, destacou.
O psiquiatra também reforça que fatores socioeconômicos, sociais e genéticos influenciam esses desfechos, mas os impactos do abuso se mantêm mesmo após esses ajustes, revelando a gravidade silenciosa das violências emocionais.
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Intervenção precoce pode salvar trajetórias
Para a neurologista infantil Pollyanna Lima Cerqueira, a primeira infância é o período mais crítico.
“O cérebro atinge 90% do tamanho adulto até os 6 anos. Quanto mais cedo ocorre a intervenção, maior a chance de minimizar impactos clínicos e emocionais. Mesmo que não seja possível reverter completamente as alterações estruturais, o acolhimento e o suporte podem transformar o desenvolvimento e o comportamento dessas crianças”, explica.
A especialista reforçou a importância do reconhecimento precoce, da atuação de profissionais de saúde e educação e do papel crucial de instituições como o Conselho Tutelar, que devem ser acionadas ao menor sinal de violência.
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
Além dos convidados, o Brasil ODS recebeu os colunistas Paulo Almeida, Gabriela Chabbouh e Nina Orlow, especialistas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Este programa colabora com o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), cujo objetivo busca assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades, ODS 4 (Educação de Qualidade), onde visa assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos, e ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes), que visa promover sociedades pacíficas, garantir o acesso à justiça para todos e construir instituições fortes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.


















































































