“Raro, mas aconteceu comigo”, de Lúcia Machado, narra a trajetória de Arisvânia Rossi Depollo, que perdeu os movimentos e a fala e reinventou a comunicação pelo olhar; Prefeitura vai adquirir 500 exemplares para a Rede Municipal de Ensino
O plenário da Câmara Municipal de Montanha foi pequeno para a noite desta sexta-feira (28), quando autoridades, familiares, amigos e leitores se reuniram para o lançamento de “Raro, mas aconteceu comigo”, romance autobiográfico escrito por Lúcia Machado. A obra conta a história real de Arisvânia Rossi Depollo, a Godóia, moradora do município que teve a mobilidade e a fala severamente comprometidas por uma tragédia de saúde e transformou o que restou em testemunho de fé, resistência e direitos.
A crítica da obra ficou a cargo da secretária Municipal de Cultura e Turismo, Evany Porto de Lira, que conduziu a plateia por uma análise detalhada. Segundo ela, classificar o livro apenas como narrativa biográfica de testemunho é insuficiente para alcançar sua dimensão humana.
Duas mulheres, um pacto
Evany chamou a atenção para a particularidade central do projeto: Lúcia Machado escreve, mas quem fala é Godóia. A autora optou pela narração em primeira pessoa e assumiu a voz da protagonista — uma viveu, a outra recolheu, organizou e transformou em literatura aquilo que foi vivido.
O livro nasceu de um convite da própria Godóia. Lúcia mergulhou em entrevistas e pesquisas, mas foi a protagonista quem definiu, do começo ao fim, o que poderia ou não ser publicado. Os capítulos prontos eram levados para que ela lesse ou ouvisse. A leitura trazia de volta lembranças que a levavam às lágrimas — e, ainda assim, Godóia pedia que a autora não parasse.
O casulo invisível
Entre as imagens que sustentam a narrativa, a secretária destacou o “casulo invisível” como a mais poderosa, por reunir duas ideias aparentemente contraditórias: aprisionamento e metamorfose. Depois da fatalidade, Godóia passou a representar sua nova condição por meio desse casulo — e se recusou a aceitar uma existência vegetativa.
A metáfora reaparece no prefácio assinado pelo padre Jonas, para quem a protagonista conseguiu “fazer a borboleta voar novamente”.
Foi também dentro desse casulo que nasceu a linguagem dos olhos. Consciente, pensando e compreendendo tudo ao redor, mas sem voz e sem resposta do corpo, Godóia converteu piscadas e movimentos das pálpebras em um sistema de comunicação com a família. O namorado, Robledo, aprendeu a decifrar esse código e passou a acompanhá-la nos exercícios e na recuperação — um amor que deixou de ser apenas paixão para se tornar presença, cuidado e permanência.
“Para que ela precisa de pernas se não anda?”
A análise reservou um dos momentos mais duros da noite para o episódio que expõe o capacitismo enfrentado pela protagonista. Após um acidente com fraturas nas pernas e sucessivos processos de imobilização, com risco de amputação, uma irmã de Arisvânia procurou o ortopedista para explicar as limitações neurológicas que interferiam no tratamento. A resposta do médico foi: “Para que ela precisa de pernas se não anda?”
Para Evany Lira, a violência da pergunta não está na insensibilidade, mas na concepção de ser humano que ela encerra — a que reduz o corpo à utilidade funcional. Uma perna, argumentou, não pertence a uma função: pertence a uma pessoa, integra sua imagem, sua identidade, sua história e sua dignidade.
De destinatária de cuidados a sujeito de direitos
A obra registra o momento em que Godóia deixa de ser apenas alvo do cuidado alheio e passa a reivindicar acessibilidade para outras pessoas. Ela levou o tema ao Ministério Público em defesa do direito de ir e vir das pessoas com deficiência, e o livro narra a posterior implantação de rampas e outras medidas de acessibilidade no município.
Dividida em seis partes — Arroubos da juventude, O revés, A Tragédia, A Resistência, A decepção e Resiliência —, a narrativa também funciona como registro afetivo de Montanha, Prado, Linhares e de parte do norte capixaba nas décadas de 1980 e 1990, com suas festas, músicas, namoros, religiosidade e formas de sociabilidade.
“Amor de Índio” ao pé da cadeira
A noite teve também sua trilha sonora. O saxofonista Jovaldo Guimarães se apresentou durante a solenidade e protagonizou um dos momentos mais marcantes do lançamento: caminhou até Godóia e tocou, diante dela, “Amor de Índio”, canção interpretada por Beto Guedes que marcou o período de namoro da protagonista. Ela se emocionou visivelmente, e o plenário acompanhou em silêncio.
Fila para autógrafos e 500 exemplares para as escolas
Encerrada a parte solene, formou-se uma longa fila para a sessão de autógrafos com a autora, intercalada por fotos com Lúcia Machado, com Godóia e com familiares que acompanharam a noite.
Foi a própria autora quem anunciou aos presentes que a prefeita de Montanha, Iracy Baltar, autorizou a Secretaria Municipal de Educação e Tecnologia a adquirir 500 exemplares da obra para distribuição na Rede Municipal de Ensino — decisão que leva a história de Godóia para dentro das salas de aula do município.
Da Câmara à Bienal
Além do impacto local, a noite celebrou a projeção da obra: o livro segue para a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, maior evento cultural da América Latina e já tem distribuição em diferentes países.
Ao encerrar a análise, a secretária lembrou que a obra não é, em essência, um livro sobre doença, mas sobre o que permanece de uma pessoa quando a vida lhe retira quase tudo o que ela imaginava indispensável para viver. E resumiu a mensagem em uma das frases mais simples do livro, dita pela própria protagonista: “Decidi que quero ser feliz.”



















































































