O litoral de São Mateus viveu, na última temporada reprodutiva, um momento que promete entrar para a história da conservação marinha capixaba. A praia de Guriri registrou o maior número de ninhos de tartarugas marinhas desde o início do monitoramento sistemático na área — um recorde que não é fruto do acaso, mas da soma persistente de esforços institucionais, comunitários e científicos ao longo de anos.
O trabalho de campo é conduzido por equipes técnicas do Projeto TAMAR em parceria com o ICMBio, com acompanhamento diário das praias, proteção e identificação dos ninhos e orientações contínuas à população e aos visitantes. A presença constante nas areias de Guriri transforma o monitoramento em algo mais do que coleta de dados: é uma presença educativa que molda a relação entre a comunidade e o ambiente costeiro.
O recorde local, no entanto, não pode ser lido de forma isolada. A conservação das tartarugas marinhas no Espírito Santo é, por natureza, um projeto coletivo e territorial. Municípios como Linhares, Aracruz, Anchieta e Vitória integram um corredor ecológico que atravessa todo o litoral capixaba, garantindo condições de desova e sobrevivência para espécies que percorrem milhares de quilômetros em suas rotas migratórias. Guriri é um elo fundamental nessa cadeia — mas é a cadeia inteira que sustenta o resultado.
Entre as práticas que explicam os avanços estão o controle da iluminação artificial nas praias, a preservação dos ambientes naturais de desova, a restrição ao tráfego de veículos na areia e o respeito às áreas sinalizadas. Medidas que, individualmente, parecem simples, mas que, aplicadas de forma sistemática e contínua, criam as condições para que fêmeas adultas retornem às mesmas praias onde nasceram para depositar seus ninhos — um comportamento que torna cada temporada positiva um investimento nas próximas décadas.
O marco registrado em Guriri é, portanto, um indicador duplo: da saúde de um ecossistema que responde positivamente à proteção, e da maturidade de uma política ambiental que soube articular instituições, poder público e sociedade em torno de um objetivo comum. Para a biodiversidade marinha do Espírito Santo, a temporada termina com um saldo que vai muito além dos números.




















































































