A delegada de Polícia Civil Layla Lima Ayub, presa nesta sexta-feira (16) em São Paulo sob suspeita de envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC), construiu sua trajetória profissional em instituições de segurança pública do Espírito Santo antes de ingressar na Polícia Civil paulista. Segundo informações do Portal da Transparência do Poder Executivo capixaba, ela atuou como cabo da Polícia Militar entre 2014 e 2022.
Formada em Direito no Espírito Santo em 2016, Layla também foi estagiária da Defensoria Pública capixaba, onde atuou em varas especializadas em tráfico de drogas, homicídios e crimes de trânsito, conforme apuração do g1 SP.
A investigação do Ministério Público de São Paulo aponta que a delegada exerceu irregularmente a advocacia ao atuar em audiências de custódia na defesa de presos ligados a organizações criminosas, mesmo já ocupando o cargo de delegada. A prática é proibida tanto pelo Estatuto da Advocacia quanto por normas estaduais que vedam aos delegados de polícia o exercício da advocacia privada.
A posse de Layla como delegada ocorreu recentemente, em 28 de dezembro de 2025, durante solenidade no Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo de São Paulo. Segundo o Ministério Público, apenas nove dias após tomar posse na Capital paulista, ela atuou como advogada na defesa de um dos quatro integrantes do PCC presos em flagrante pela Polícia Militar em Rondon do Pará, a 523 quilômetros de Belém.
Namorado presente na posse
O namorado da delegada, Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como Dedel, também foi preso. Ele é apontado pelas autoridades da Região Norte como integrante do PCC e um dos chefes do tráfico de armas e drogas em Roraima. Uma fotografia registrou a presença de Jardel na posse de Layla como delegada, no dia 19 de dezembro de 2025. Na imagem, os dois aparecem abraçados e com roupas formais do lado de fora da Academia.
O promotor Carlos Gaya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), referiu-se à presença de Jardel no evento como um “demonstrativo de audácia”. “Ela é advogada, ciente de que ele está descumprindo o sistema de livramento condicional dele e ciente de que ele é um autodenominado membro da facção. Mesmo assim, leva ele na posse dela no Palácio dos Bandeirantes. Parece um deboche”, afirmou ao UOL.
Jardel morava com a delegada em São Paulo enquanto estava em liberdade condicional e no período em que ela frequentava o curso de formação da carreira na Academia da Polícia.
Hipótese de cooptação
A principal hipótese investigada é de que Layla tenha sido cooptada a partir do contato com lideranças do PCC durante o exercício da advocacia, o que se aprofundou a partir do relacionamento com Dedel. “Não parece que ela foi cooptada para ser delegada do PCC. Foi uma ação individual”, avaliou o promotor Carlos Gaya.
Não há indícios de que a facção tenha investido e patrocinado a carreira da delegada. Promotores do Gaeco suspeitam que Layla utilizava o cargo para favorecer interesses da facção criminosa. Como delegada, ela teria acesso a inquéritos e a bancos de dados com informações restritas.
Suspeita de lavagem de dinheiro
As investigações também apontam que Layla e o namorado teriam adquirido uma padaria em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, com dinheiro de origem ilícita. De acordo com o promotor Gaya, o estabelecimento teria sido negociado recentemente com um homem natural da mesma cidade de Jardel. “A gente não sabe ainda se ele era um laranja, se eles fizeram um contrato de gaveta. Supostamente existe um contrato de aquisição e eles confirmaram isso informalmente”, explicou o promotor, acrescentando que foram encontrados alguns contratos, mas a propriedade ainda não havia sido transferida para o casal.
Formação e carreira
De acordo com o currículo Lattes, Layla tem histórico profissional em diferentes instituições da área de Segurança Pública. Além da formação em Direito, ela cursou pós-graduações em Direito Penal, Direito Constitucional, Docência no Ensino Superior, Gestão, Direito Processual Penal, Ciência Forense e Perícia Criminal.
Em março do ano passado, ela também passou a integrar a Comissão da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Pará.
O secretário de Segurança de São Paulo afirmou que a delegada não tinha comportamentos anteriores “que a desabonassem”. No entanto, o delegado Nico Gonçalves explicou que os admitidos no concurso ficam em estágio probatório por três anos, podendo ser investigados.
A pedido do Ministério Público de São Paulo, a Justiça decretou tanto a prisão temporária de Layla quanto a do namorado. O casal é investigado pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Layla está presa temporariamente, com validade de 30 dias e possibilidade de prorrogação por mais 30, até conclusão dos trabalhos.
A reportagem tenta localizar a defesa do casal preso. O espaço segue aberto para manifestação.



















































































