Uma premiada série documental está prestes a revelar um capítulo pouco conhecido da ditadura militar brasileira: a parceria entre o regime e grandes empresas de celulose que resultou em graves violações de direitos contra povos indígenas e comunidades quilombolas. “Ditadura de Papel”, criada e dirigida por Cíntia Braga, foi contemplada pelo Edital Doc-TV da Lei Paulo Gustavo via Secult/ES para 2024, e promete trazer à tona histórias de opressão, resistência e luta por justiça no norte do Espírito Santo e sul da Bahia.
Composta por sete episódios de 26 minutos cada, a série produzida pela Satírica Filmes e Produções LTDA documenta como a ditadura militar, aliada ao poder econômico de empresas como a Aracruz Celulose (hoje Suzano), promoveu a expansão predatória da monocultura de eucalipto na região, fenômeno que os realizadores denominam “Ditadura de Papel”.
O EUCALIPTO QUE SUFOCOU COMUNIDADES
A implantação do parque industrial paraquímico pela Aracruz Celulose durante as décadas de 70 e 80 resultou em uma série de violações que vão desde a apropriação ilegal de terras até assassinatos, assédio e contaminação ambiental em grande escala. O documentário revela como a ideologia desenvolvimentista do regime militar serviu como justificativa para a destruição de modos de vida tradicionais e a expansão desenfreada do agronegócio.
“Não estamos falando apenas da ditadura dos militares, mas também da ditadura do capital e dos empresários”, explica a diretora Cíntia Braga em entrevista exclusiva. “No norte do Espírito Santo, essa realidade se materializou através do que chamamos de ‘Ditadura do Eucalipto’, uma monocultura que literalmente sufocou comunidades inteiras.”
VOZES QUE RESISTEM
Um dos aspectos mais impactantes da série é dar protagonismo aos depoimentos de membros das comunidades quilombolas e indígenas de São Mateus e Conceição da Barra. Estes personagens compartilham suas experiências de vida antes e depois da chegada da Aracruz Celulose, revelando processos sistemáticos de expulsão e as formas de resistência que mantêm viva até hoje.
Em um dos episódios mais contundentes, intitulado “Aqui o eucalipto é regado à sangue”, quilombolas relatam como suas terras ancestrais foram tomadas à força, muitas vezes com violência explícita e apoio estatal. Já em “Guaranis e Tupiniquins: territórios ancestrais com firma reconhecida”, a série aborda a luta dos povos indígenas contra a burocratização imposta para negar seus direitos territoriais.
DO PASSADO AO PRESENTE
O documentário estabelece uma poderosa conexão entre o passado e o presente ao incluir o histórico Porto de São Mateus, local emblemático do tráfico de escravizados, ressaltando a continuidade da luta dos descendentes dos escravizados nas Comunidades Quilombolas pela preservação de seus territórios.
A série também aborda problemas ambientais contemporâneos, como o desmatamento crescente, a expansão do monocultivo, o aumento dos latifúndios, o uso indiscriminado de agrotóxicos e a crise climática, demonstrando como as violações do passado têm consequências diretas nos desafios atuais.
UM DOCUMENTO PARA A MEMÓRIA NACIONAL
Com uma estética que combina entrevistas, imersão em comunidades, visitas a locais de memória, imagens de arquivo e cartografia animada, “Ditadura de Papel” não se limita a denunciar – ela também constrói um importante documento para a preservação da memória nacional.
“Este é um projeto de militância e ativismo pelos Direitos Humanos”, afirma Braga. “Estamos comprometidos em dar visibilidade às causas dos povos indígenas e quilombolas, refletindo sobre como o passado moldou suas lutas contemporâneas e contribuindo para que a sociedade brasileira compreenda que o direito à memória e à verdade são aspectos fundamentais e constitucionais.”
A série “Ditadura de Papel” tem estreia prevista para o segundo semestre de 2024 e deve ser exibida em canais públicos de televisão, além de festivais especializados em documentários e direitos humanos.




















































































