O Festival da Morena encerrou ontem em grande estilo com a apresentação da cantora Nayara Azevedo, mas foi marcado por uma polêmica que divide opiniões no Espírito Santo: afinal, qual município produz a melhor carne de sol do estado?
A controvérsia surgiu após a sanção da Lei nº 12.431, de 2 de junho de 2025, pelo governador Renato Casagrande, que concede ao município de Ponto Belo o título de “Capital Estadual da Carne de Sol”. O projeto de lei foi apresentado pela deputada estadual Janete de Sá, mas gerou questionamentos sobre os critérios utilizados para a escolha.
Em uma reviravolta surpreendente, a mesma deputada que propôs o título para Ponto Belo apresentou, em 26 de maio de 2025, apenas uma semana antes da sanção da primeira lei, um novo Projeto de Lei conferindo ao município de Montanha o título de “Capital Estadual da Amizade e da Carne de Sol”. Na justificativa, Janete de Sá reconhece que “a carne de sol de Montanha é a única com a certificação inédita com o selo Arte entregue pelo Ministério da Agricultura”.
Enquanto isso, a população do município de Montanha, conhecido como “Capital da Amizade”, reivindica o reconhecimento pela tradição na produção do alimento. A cidade abriga a marca Arroba Montanha, primeira carne de sol do Brasil a receber certificação como produto artesanal pelo selo Arte, concedido pelo Ministério da Agricultura.
Tradição familiar que atravessa gerações
A Arroba Montanha foi idealizada por Caio Wand-Del-Rey, neto de baianos que trouxeram a tradição da carne de sol da Bahia para Montanha. Formado em Engenharia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, ele retornou à cidade natal em 2011 para assumir a propriedade rural da família e transformar duas paixões – pecuária e carne – em um único projeto.
“Quarta geração de pecuaristas, descendência nordestina, crescemos com a carne de sol frequente no cardápio”, explica Wand-Del-Rey. A empresa familiar investiu mais de uma década em pesquisa, técnica e inovação para elevar o produto ao mais alto padrão gastronômico.
Diferencial no processo produtivo
A marca se destaca por utilizar apenas novilhas jovens selecionadas, garantindo maciez e textura diferenciadas. O processo de salga é leve, dispensando a necessidade de dessalgar ou temperar antes do preparo. A carne sai pronta para ir ao fogo, com cortes premium como bife ancho, chorizo e assado de tira.
Além dos cortes tradicionais, a Arroba Montanha inovou com produtos exclusivos como carpaccio de carne de sol e hambúrguer de carne de sol, sempre mantendo o foco na alta gastronomia.
Contexto nacional
No cenário nacional, Campo Maior, no Piauí, é amplamente reconhecida como produtora da melhor carne de sol do Brasil, mantendo uma tradição consolidada ao longo de décadas.
Valorização cultural da tradição
Em meio à polêmica, iniciativas culturais reforçam a tradição de Montanha na produção da carne de sol. O município ganhou um conto infantojuvenil sobre a fundação da cidade e como nasceu a tradição da carne de sol local, produzida artesanalmente por mais de 50 anos.
A obra foi escrita por Sula Borges, nascido no município, professor de Filosofia e coordenador da rede estadual de educação. “O objetivo do livro é deixar registrado nossa cultura e nossas tradições e também uma forma de incentivo à leitura através da nossa própria história”, declara o escritor. As ilustrações da obra, que apresenta uma história cheia de floreios e revelações, são assinadas pelo ilustrador Gió.
Além do livro, há também uma apresentação teatral que valoriza a tradição da carne de sol no município, reforçando o aspecto cultural e histórico da produção local.
Mobilização pela regionalização
Paralelamente, a própria deputada Janete de Sá, autora do projeto que criou o título para Ponto Belo, apresentou em 5 de maio de 2025 o Projeto de Lei reconhecendo a “Rota Turística do Vale do Itaúnas e da Carne de Sol”, que interliga os municípios de Montanha, Pinheiros, Mucurici, Ponto Belo, Conceição da Barra, Pedro Canário e Boa Esperança.
Na justificativa deste projeto, a deputada destaca que “em 2017 os municípios de Montanha, Pinheiros, Mucurici, Ponto Belo, Conceição da Barra, Pedro Canário e Boa Esperança receberam uma identidade visual própria em decorrência da produção da carne de sol de excelente qualidade e em total respeito às tradições locais”.
Em resposta à polêmica, o deputado estadual Toninho da Emater, representante da região e ex-prefeito de Pinheiros por dois mandatos, apresentou na Assembleia Legislativa um Projeto de Lei criando a “Rota Turística da Carne de Sol Doce Terra Morena”, numa tentativa de valorizar toda a região produtora. Toninho da Emater também presidiu o Consórcio Prodnorte, que reúne 12 municípios da região.
A iniciativa ganhou apoio artístico do cantor e compositor regional Fábio Teixeira, que lançou a música “A Carne é Nossa”, fazendo referência ao caráter regional do produto, não restrito a um único município.
“Pois a carne não é minha; a carne não é tua; a carne é nossa;
Deixe de teima!
O modo de fazer e a nossa geografia diz; Carne de sol da Doce Terra Morena”, declama o refrão da composição, que menciona diversos municípios da região: Pinheiros, Pedro Canário, Montanha, Mucurici e Ponto Belo.
A letra enfatiza que todos os municípios compartilham “o sol em comum” e que “juntos nós somos um com a carne de sol”, defendendo uma identidade regional em vez da concentração do título em uma única cidade.
A polêmica no Espírito Santo levanta questões sobre os critérios para concessão de títulos gastronômicos e o reconhecimento de tradições locais consolidadas. Enquanto Ponto Belo recebeu oficialmente o título de capital estadual, cresce o movimento pela valorização de toda a região como berço da carne de sol capixaba.




















































































