A dificuldade de advogados mais experientes em acompanhar a virtualização da Justiça deu origem a uma iniciativa que hoje ganha reconhecimento nacional. O Laboratório de Inclusão Digital, criado no Espírito Santo para apoiar profissionais com mais de 50 anos no uso de processos eletrônicos, foi validado pelo Instituto Innovare como uma prática que contribui para o aprimoramento da Justiça brasileira.
Voltado ao uso de sistemas como PJE, SEEU, e-DOC e e-Proc, o projeto nasceu da percepção de que a tecnologia estava se tornando um fator de exclusão dentro da advocacia. Para a idealizadora da iniciativa, a advogada Kelly Andrade, presidente da Caixa de Assistência dos Advogados do Espírito Santo (CAAES), o diferencial está na forma como o projeto foi pensado, com foco na escuta, no acolhimento e na troca entre gerações.
O Instituto Innovare é uma associação sem fins lucrativos que identifica, premia e divulga práticas inovadoras desenvolvidas no âmbito do Poder Judiciário, do Ministério Público, da Defensoria Pública e da advocacia, com foco na modernização, na democratização do acesso e na efetividade do sistema judicial brasileiro.
Autonomia e dignidade profissional
“Com a implantação dos processos judiciais eletrônicos e o fim dos autos físicos, muitos advogados idosos passaram a enfrentar dificuldades para operar os sistemas. Isso fez com que parte deles deixasse a profissão ou passasse a depender de terceiros para exercer a advocacia. Em Cariacica, onde cerca de 17% dos advogados têm mais de 50 anos, o impacto foi direto na autonomia, na renda e na dignidade desses profissionais”, explica Kelly Andrade.
A partir desse cenário, foi criado o Laboratório de Inclusão Digital, iniciativa gratuita de capacitação prática voltada a advogados 50+. O projeto nasceu na Subseção da OAB de Cariacica, que Kelly Andrade já presidiu, e funciona em um espaço estruturado como sala de informática, com atendimentos individualizados, metodologia acessível, linguagem direta, apostila própria e o apoio de advogados voluntários que atuam como instrutores.
O único custo para os participantes é o valor simbólico de R$ 20, destinado à impressão do material didático.
Resultados expressivos
Nos primeiros cinco meses de funcionamento, o laboratório qualificou mais de 10% dos advogados com mais de 50 anos de Cariacica, contribuindo para a reinserção desses profissionais no mercado e para o resgate da autonomia e da confiança no exercício da advocacia. A prática chama a atenção pelo baixo custo, pelo impacto social e pela facilidade de ser replicada em outras regiões.
Além do ensino técnico, o laboratório atua no enfrentamento do bloqueio emocional com a tecnologia, comum nessa faixa etária. O ambiente é construído com base no acolhimento e na escuta. Todo o processo foi desenvolvido de forma voluntária e colaborativa, sem patrocínio ou verba externa, desde a criação da metodologia até a produção das apostilas e dos materiais de apoio.
Expansão para outras regiões
Atualmente, a iniciativa foi ampliada para outras áreas da Grande Vitória, como a Casa de Advocacia da CAAES, em Vitória. Além disso, existe um planejamento para que o projeto também seja realizado no interior do Espírito Santo, onde cerca de 25% da advocacia é composta por profissionais com mais de 50 anos.
“A iniciativa reforça que envelhecer na profissão não significa ficar para trás. É possível seguir ativo, valorizando a experiência acumulada e fortalecendo o acesso à Justiça”, destaca a Dra. Kelly Andrade.



















































































