Em um evento realizado na Câmara Municipal de Montanha, no norte do Espírito Santo, a Assembleia Legislativa do Estado deu o pontapé inicial na primeira entrega de mudas do projeto “Arranjo Produtivo”, distribuindo 33 mil mudas de café para 71 agricultores cadastrados na cidade. A iniciativa, que também contempla culturas como pimenta, cacau e abacate, é apresentada por seus idealizadores como uma aposta concreta no fortalecimento da agricultura familiar como motor de desenvolvimento econômico e social no interior capixaba.
Liderado pelo presidente da Assembleia Legislativa, deputado Marcelo Santos, o programa foi lançado em 2023 com a adesão de 20 municípios e já alcança 36. A meta é ambiciosa: chegar a todos os 78 municípios do Estado e se consolidar como política pública permanente. Até o momento, mais de 22 mil agricultores foram atendidos por uma equipe de servidores e técnicos que percorre o interior realizando visitas, identificando demandas e oferecendo suporte direto aos produtores rurais.
Os números projetados reforçam a aposta. Segundo os organizadores, as 30 mil mudas de café entregues em Montanha devem produzir cerca de mil sacas do grão em um prazo de dois anos, gerando aproximadamente R$ 1 milhão para os produtores locais — um retorno expressivo sobre o investimento público realizado.
Quem também fez as contas foi o vereador Odair Celin, responsável pela organização do evento. Em tom animado, ele contou que, antes mesmo de sair da cama naquela manhã, já estava calculando o retorno esperado só com as mudas de café. “São 30 mil mudas. Cada mil produz fácil 30 sacas. Vai beirar mil sacas daqui a dois anos. Vamos falar que a gente vai vender a mil reais? É um milhão de reais”, projetou, ressaltando que conhece pessoalmente cada um dos produtores beneficiados e confia na capacidade de trabalho deles. Celin também aproveitou para lembrar que o município arcou com R$ 500 em combustível para buscar as mudas — e fez questão de contrastar esse custo com o retorno esperado. “Não tenho dúvida de que é no campo que está a saída da cidade”, declarou.
O vereador ainda homenageou o ex-prefeito Aristido Depolo, que governou Montanha de 1983 a 1989 e foi responsável pela implantação do primeiro viveiro de mudas do município, distribuindo sementes de café à época. “Quero agradecer o senhor publicamente por ter dado esse pontapé e plantado essas sementes”, disse Celin, traçando uma linha histórica entre aquela iniciativa pioneira e a entrega celebrada nesta tarde.
“Setenta e cinco por cento da agricultura capixaba é familiar”, destacou Marcelo Santos, justificando a centralidade desse público no desenho do programa. O deputado foi enfático ao questionar se o dinheiro público anunciado em propagandas governamentais realmente chega ao produtor que “levanta de madrugada para arar a terra e colocar semente”. Para ele, o diferencial do “Arranjo Produtivo” está exatamente nisso: ir até o agricultor, ouvir suas demandas e agir. “Deus nos deu dois ouvidos e uma única boca, para ouvir mais, falar menos e agir mais”, afirmou.
Além da entrega de insumos, o programa oferece capacitação técnica, dias de campo, seminários e orientação para a diversificação produtiva — incluindo apicultura, cultivo de morango em estufas, piscicultura e aquaponia —, com foco nas potencialidades específicas de cada região. Santos frisou que a equipe técnica do projeto visita as propriedades “da porteira para dentro”, identificando o que é mais adequado para cada solo, clima e comunidade antes de definir as culturas a serem incentivadas.
O projeto também mira lacunas estruturais que limitam o crescimento dos pequenos produtores. Um dos gargalos identificados é a falta de certificação: mais de 80% das pequenas agroindústrias do Estado operam sem regularização, o que restringe seu acesso a mercados. Em resposta, a Assembleia firmou convênio com o Sebrae com a meta de certificar metade dessas unidades. Santos citou como exemplo emblemático o caso da Confrio, empresa que teve caminhões apreendidos por falta de certificação e hoje opera regularizada — ilustrando o impacto concreto da medida para produtores que desejam vender além das fronteiras locais. O programa ainda apoia a constituição e regularização de associações de produtores e inclui ações de educação ambiental, com atenção à preservação de nascentes. Outra frente em expansão é a dos créditos de carbono: segundo Santos, 18 produtores já assinaram contratos em Montanha — em outras cidades, o número chega a mais de 300 —, garantindo renda adicional por até 40 anos para quem cuida da terra.
A prefeita de Montanha, Iracy Baltar, lembrou que a iniciativa rendeu um reconhecimento nacional à Assembleia Legislativa do Espírito Santo: o prêmio de Assembleia Cidadã, concedido entre todas as Assembleias Legislativas do Brasil, teve o Projeto dos Arranjos Produtivos como um dos fatores determinantes. Em sintonia com o tom do evento, Iracy fez um apelo direto contra a importação de polarizações para o interior. “Não tragam para a nossa cidade briga de Brasília. Brasília que brigue por lá. Nós aqui temos que pensar uns nos outros”, declarou. A gestora ainda anunciou que o município foi contemplado pelo Novo PAC com uma Unidade Básica de Saúde e um Centro de Atenção Psicossocial, com ordem de serviço prevista para o mesmo dia, e adiantou que na semana seguinte deve ser dado o início à construção de 60 moradias de interesse social para famílias em área de risco — obras que, segundo ela, vão compor um novo bairro já nascendo com infraestrutura. Ao encerrar, Iracy reservou um agradecimento político explícito a Marcelo Santos, elogiando sua postura ao declarar apoio à candidatura ao governo do Estado do então vice-governador Ricardo Ferraço em um momento em que, segundo ela, a posição dos demais ainda era incerta. “Obrigada pela sua coragem, pela sua decência e pela sua lealdade. Nós precisamos dele para que municípios pequenos, como Montanha, não sejam esquecidos, vistos apenas como um pontinho no mapa do Espírito Santo”, afirmou.
Marcelo Santos fez questão de sublinhar o caráter apartidário do programa e da própria Assembleia que preside. Ele destacou que a Casa Legislativa, apesar de refletir a mesma diversidade ideológica do Congresso Nacional, funciona de forma diferente: quando a matéria em votação diz respeito ao Espírito Santo, disse ele, a ideologia fica de lado. “A gente tira a ideologia, bota ali na mesinha e vota em favor do povo. Porque o povo não pode ter bandeira nessa hora”, afirmou. O deputado também chamou atenção para sua postura de visitar pessoalmente os 78 municípios do Estado — está em seu sétimo mandato e teve votos em todas as cidades capixabas.
Para encerrar, Santos apelou à reflexão sobre o voto consciente, contrapondo políticos que “produzem, entregam, dialogam e ouvem” àqueles que se limitam a discursos nas redes sociais sem presença concreta nas comunidades. Para ilustrar as consequências da inação política, relatou o caso da menina Alice, de seis anos, baleada dentro de um carro na Serra no ano passado enquanto voltava de um passeio com os pais — enquanto a família da vítima não recebeu nenhum benefício do Estado, a família dos assassinos presos recebia auxílio mensal. “Comece a refletir: o que nós queremos e o que nós escolhermos será o fruto que a gente vai ter lá na frente”, disse.
O “Arranjo Produtivo” integra um conjunto mais amplo de ações da Assembleia Legislativa voltadas ao interior capixaba, que inclui ainda o programa “Guardiões da Infância”, iniciativa de capacitação de profissionais de saúde, educação e outras áreas para identificar e prevenir situações de violência e abuso contra crianças, desenvolvida em parceria com o Tribunal de Justiça, Ministério Público, Defensoria Pública, OAB e Prefeituras Municipais.



















































































