
Quase um mês após a alta do hospital e poucos dias antes da volta às aulas na rede estadual, a professora de Língua Portuguesa da Escola “Primo Bitti”, Aristênia Torres Mancini, uma das vítimas do ataque a escolas em Aracruz conversou com o g1 sobre o processo de recuperação e retomada das atividades em sala de aula. A tragédia completou dois meses na quarta-feira (25).
Aristênia ficou internada no Hospital Estadual Jayme Santos Neves, na Serra, Grande Vitória, e teve alta no dia 31 de dezembro.
“Fiz muitas amizades, a equipe é fantástica. Fui tratada com muito carinho pelo médicos, equipe de enfermagem e de limpeza. Só tenho agradecimento, eles me trouxeram à vida novamente”, disse a professora.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/8/2/mPXEniTSeJifnRzjxXsA/whatsapp-image-2023-01-25-at-07.21.30.jpeg)
Aristênia Torres Mancini, professora ferida em atentado a escolas de Aracruz, recebeu alta no dia 31 de dezembro — Foto: Arquivo pessoal
Recuperação
Moradora de Aracruz, a professora está se recuperando dos ferimentos.
A professora foi atingida por seis tiros e, há poucos dias, foi ao médico para tirar os pontos e as talas da perna e do braço esquerdo.
Até a data da entrevista, Aristênia seguia fazendo fisioterapia, mas ainda não havia voltado a andar.
“Não tenho os movimentos de abrir e fechar os dedos. Preciso me locomover com a cadeira de rodas porque minha perna esquerda ainda está muito debilitada, não posso andar. Até para tomar banho, preciso de cadeira. Não posso botar o pé no chão. Cada dia é um obstáculo que a pessoa vai vencendo”, contou a professora.
De acordo com Aristênia, alunos e ex-alunos e até desconhecidos têm enviando muitas mensagens de carinho e apoio.
“Tenho me sentido muito abraçada, muito amada. Ex-alunos que não via há anos me procuram com mensagem de carinho. São vinte anos na mesma escola, muita gente conhecida e querida por mim que eu tinha perdido contato e reapareceram”, falou.
“Sou imensamente grata a Deus e a nossa Virgem Maria e a todas as orações. São pessoas que eu nem conheço mas que estão rezando para que todos nós fiquemos recuperados dessa tragédia”, completou.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/U/8/zItKrxRcCuPCkxO53YJA/professora-alta.jpg)
Professora de Língua Portuguesa da Escola Estadual Primo Bitti, Aristênia Torres Mancini, está se recuperando dos ferimentos de tiros do atentado a duas escolas de Aracruz, ES — Foto: Arquivo pessoal
Trauma
Mesmo com tanto carinho e apoio, Aristênia falou que ainda enfrentava os traumas dos momentos de terror vividos no dia do ataque.
“Qualquer barulho que às vezes eu ouço, que é um pouco mais alto, pode ser até um foguete, mas acho que é um tiro. Ontem mesmo, estava dormindo e, umas 2h da manhã, eu falei ‘que tiro foi esse?’. Não teve tiro nenhum. Tive um pesadelo pensando que fosse um tiro de novo.”, disse a professora.
Nos últimos dias Aristênia contou que vinha refletindo sobre tudo que aconteceu no atentado.
“São 60 dias de muita reflexão e luta. Ele [o assassino] destruiu o sonho de várias pessoas da minha escola em pouco mais de 50 segundos. Isso é devastador. Esse ato para mim foi terrorista, porque matar friamente alguém que estava no seu momento de lazer, de recreio, é terrorismo”, falou.
“Meu Deus do céu, acho que não dá nem pra imaginar o que vivi. As pessoas foram atingidas de forma gratuita sem ter feito nada com ninguém”, completou.
Sobre a proximidade da volta às aulas, a professora disse que ainda não pensa em voltar a lecionar.
“Ainda não consigo conversar sobre volta às aulas. Só de pensar fico ansiosa. Tantos anos dando aula e hoje em dia tenho pavor de passar na frente de uma escola, sabe?”, confessou.
“Todos nós professores estamos fazendo tratamento com psicólogo e psiquiatra. É uma dor muito grande que não dá pra comparar com nada. Peço a Deus que ninguém venha passar por um mal terrível como esse”, disse Aristênia.



















































































