
Evany Lira
Aos 29 anos, Alane Moreira carrega no olhar a marca de quem aprendeu a transformar adversidade em combustível. Natural de Itabaiana, distrito de Mucurici no Nordeste do Espírito Santo, ela concluiu o Ensino Médio em 2012 na única escola pública da região, fechada pouco após sua formatura. Hoje, colhe os frutos de uma jornada marcada por escassos recursos, mas ilimitada determinação: sua nota no Enem 2024 a classificou para o curso de Ciências Contábeis em três instituições de ensino, incluindo uma universidade federal.
Infância e Sonhos Adiados
Filha de uma gari e de um empreiteiro rural que vive à mercê de trabalhos temporários em fazendas, Alane cresceu em um cenário de incertezas. “Minha mãe sustentava a casa sozinha quando o pai ficava sem serviço. Estudei a vida toda em escola pública, mas depois do Ensino Médio, não via como continuar”, relata. Sem condições financeiras e em uma região sem oportunidades de emprego ou acesso ao ensino superior, o sonho de cursar Ciências Contábeis ou Administração parecia distante.
A realidade apertou ainda mais quando ela se tornou mãe, aos 23 anos. Hoje, morando com os pais e o filho de 7 anos, divide-se entre uma loja local e serviços de faxina, somando uma renda mensal de R$ 600. “Às vezes, achava que estudar era um luxo para alguém como eu”, admite.
A aposta no ‘Impossível’
Em 2024, inscreveu-se no Enem quase sem esperanças. “Perdi seis meses achando que não passaria nem para meia bolsa”, confessa. Mas em julho, decidiu encarar o desafio. Sem material didático, dinheiro para cursinhos ou tempo livre, usou o celular e um plano básico de internet para estudar pelo YouTube. “Focava em Português e Redação nas horas vagas do trabalho e à noite, em casa”, explica.
Na reta final, investiu R$ 150 — valor que considera “uma fortuna” — em um minicurso de redação de quatro horas. “Foi tudo o que pude fazer”, diz, citando o canal Luma e Ponto como sua principal ferramenta.
A Surpresa que mudou tudo
O resultado veio como um choque: 920 pontos na redação e média geral de 681,1, suficientes para garantir vagas em Ciências Contábeis na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), na Multivix e no Centro Universitário de Caratinga (UNEC). “Chorei quando vi. Parecia um presente de Deus”, emociona-se.
O dilema da vitória
Agora, Alane enfrenta uma escolha delicada. Se, por um lado, a Ufes oferece prestígio acadêmico, por outro, a distância e a necessidade de conciliar estudos com a criação do filho pesam. “Não quero abrir mão de estar presente na vida dele. Preciso avaliar qual instituição permitirá que eu equilibre as duas coisas”, pondera.
Enquanto avalia opções, sua história já ecoa como exemplo em Itabaiana. “Mostrei que mesmo sem estrutura, dá para correr atrás. Se eu consegui, outros também podem”, reflete.
Para Alane, a formatura em Ciências Contábeis será mais que um diploma: é a prova de que, mesmo em “terrenos áridos”, sonhos podem florescer.



















































































